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Se depender de seu comitê organizador, os Jogos Olímpicos que começam na próxima sexta, em Londres, vão entrar para a história não apenas pelos recordes quebrados pelos atletas participantes, mas também pela marca de sustentabilidade que pretendem espalhar pela cidade. Mas será que o Rio consegue em quatro anos superar essa marca?

Na questão econômica, o inédito investimento privado em construção de uma vila olímpica parece nos colocar um passo à frente. Já pelo lado ambiental, podemos empatar na emissão de carbono e na redução de resíduos. Mas eles levam vantagem em relação à escolha da área. Enquanto Londres optou pela revitalização de uma área industrial, antes degradada, que teve o terreno descontaminado e após os Jogos poderá atrair novos moradores, o Rio escolheu uma região valorizada pelo mercado imobiliário, mas que deve se beneficiar da recuperação do importante ecossistema da Lagoa de Jacarepaguá, que deverá ser dragada.

— A opção pela revitalização de uma área industrial tem peso muito grande para a questão da sustentabilidade dos Jogos de Londres. Mas se pensarmos nos três pilares do tema: o do meio ambiente, o econômico e o social, estamos muito bem — afirma Luiz Pizzotti, gerente de sustentabilidade da Empresa Olímpica Municipal (EOM).

Para Pizzotti, a vantagem do Rio está em ter levado adiante as parcerias público-privadas, que diluem o custo dos projetos, desonerando o poder público, e também no impacto social que uma Olimpíada pode render para uma cidade:

— Os Jogos trouxeram oportunidades inegáveis como legado social. Houve um aporte de recursos maior em projetos e programas sociais que só aconteceram porque somos sede da Rio 2016, mas esse legado ainda é difícil de mensurar.

O meio ambiente, tão caro ao carioca, não foi esquecido nessa conta. Se Londres pode se gabar por ser a primeira cidade a mensurar a pegada de carbono (desde o início do planejamento dos Jogos até o último minuto da cerimônia de encerramento), o Rio vem se planejando para que sua Olimpíada seja “carbon-free”. Em outras palavras, tenha as emissões de carbono completamente neutralizadas. Tanta por sua redução, quanto pela compensação, feita através de reflorestamento que já vem sendo promovido pelos poderes municipal e estadual em áreas diversas, como o Parque da Pedra Branca, próximo ao Parque Olímpico.

Nesse sentido, uma das iniciativas foi criar uma usina de concretagem no canteiro de obras da Vila dos Atletas que vai servir tanto a ela quanto ao Parque, diminuindo o transporte do material durante a construção dos dois principais equipamentos dos Jogos. Outra medida: reduzir ao máximo a compra de materiais importados. Além disso, a quantidade de carbono emitida também está sendo calculada desde já em todas as instâncias: municipal, estadual e federal.

— Pode ser até que a gente consiga uma taxa negativa de emissão — sonha Roberto Aibinder, diretor de Projetos da EOM.

No quesito redução de resíduos, também estamos seguindo os passos londrinos. Por lá, a expectativa inicial era de reduzir em até 90% os resíduos gerados durante as obras. Chegou a 98%. Por aqui, a taxa também deve ficar próxima aos 100%. No autódromo, que será demolido para dar lugar ao Parque Olímpico, por exemplo, todo o concreto será reprocessado para ser reutilizado; o asfalto da pista também será reaproveitado, assim como os pneus de proteção que serão transformados em tipos diversos de pavimentação. E até a estrutura das arquibancadas, que é metálica, deverá ser reaproveitada em um dos novos equipamentos esportivos.

— Queremos usar 100% de tudo o que for demolido — garante Aibinder.

Segundo o diretor da EOM, outro legado dos Jogos será o novo sistema de transporte, com a construção dos corredores de ônibus (BRTs), a ampliação do Metrô e a melhoria dos trens da Supervia. Tudo isso permitirá que em 2016 o transporte público sirva para as pessoas assistirem as competições:

— O uso do transporte público deve pular dos 16% de hoje para 60% dentro de quatro anos.

Parque Olímpico nasce verde e com características de bairro tradicional

E nessa transformação do sistema de transporte, a criação dos BRTs também é importante para o segundo momento do Parque Olímpico e da Vila dos Atletas, quando os locais vão se transformar em bairros — os primeiros planejados na cidade com características já sustentáveis. Tanto assim, que uma das grandes vantagens de ambos é justa$o fato de terem duas linhas de corredores expressos passando em suas portas.

— Ao contrário do padrão de ocupação da Barra, o Parque Olímpico já nasce com uma ambiência de bairro mais tradicional, que mescla usos: atividades comerciais, residenciais, escritórios, comércio na esquina. E tem uma mobilidade interna muito boa, com ciclovias, que serão ligadas a rede cicloviária da região, e duas linhas de BRT na porta — afirma Luiz Pizzotti, da Empresa Olímpica Municipal (EOM).

Questões como eficiência energética e redução do consumo de água também estão sendo consideradas no planejamento desse novo espaço da cidade. Tanto na questão urbanística quanto dentro dos edifícios, já que todos os equipamentos construídos para as Olimpíadas terão certificação Leed (dada pelo Green Building Council Brasil), e a intenção é pedir o mesmo selo também para o bairro, que promete mudar a paisagem da região.

— As pessoas reclamam da do autódromo, mas hoje aquela região está totalmente degradada, sem qualquer resquício da vegetação de restinga, por exemplo. O projeto se propõe a fazer um grande parque público, recuperando essa área e descortinando aquele cenário fantástico da Lagoa e dos maciços — defende Roberto Aibinder, diretor de projetos da EOM.

Já na Vila dos Atletas, as mesmas premissas de acessibilidade e mobilidade urbana foram levadas em consideração no projeto de desenvolvimento do futuro bairro Ilha Pura. Mas ali o investimento, na ordem dos R$ 2 bilhões, é privado e está sendo tocado pelo consórcio formado pelas empresas Odebrecht Realizações Imobiliárias e Carvalho Hosken.

— Nossa meta é reduzir em 30% a emissão de carbono na produção de concreto em relação à Vila Olímpica de Londres — diz Carlos Armando Paschoal, presidente do consórcio, que também busca algumas certificações, como Procel e Qualiverde para os edifícios, e Aqua, para o bairro.

— Para diminuir impactos ambientais, também estamos fazendo a gestão de resíduos, usando materiais sustentáveis, reduzindo a circulação de caminhões. Além disso, haverá um parque público de 65 mil metros quadrados com paisagismo do escritório Burle Marx — destaca Paschoal.

A implementação desses critérios — muitos deles exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) — é, sem dúvida, um grande avanço para a cidade. Ainda assim, há questões que podem melhorar, ressalta a arquiteta especialista em sustentabilidade Viviane Cunha:

— A cidade vem sofrendo melhorias, mas sinto falta de uma previsão mais efetiva dos impactos causados por essas mudanças. O BRT é bom, mas qual impacto que gera na circulação de pedestres, por exemplo? Em Londres, todas essas questões foram planejadas desde o início.

Fonte: O Globo

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